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 Paisagem ampliada: as artes e a cultura em tempos de globalização
Publicada no caderno Pensar do Jornal Estado de Minas - 24/02/2007
 Por Luiz Flávio Silva


         O debate acerca do futuro das artes não é tão recente. Talvez possamos situá-lo, ao menos no campo da estética, nas primeiras décadas do século XIX, a partir do prognóstico hegeliano da morte (ende) da arte, tema retomado em perspectiva diversa por Theodor Adorno no século passado. Se a arte estava fadada ao desaparecimento pela sua gradual transformação em filosofia, ou se perderia o seu papel de agente ampliador da capacidade perceptiva num ambiente de degradação cultural generalizada promovida pela indústria cultural, o debate estético trazia à tona uma redefinição do lugar da obra de arte bem como do próprio conceito de arte.
          No campo específico das Artes Visuais, além de movimentos como o Dadá e o Surrealismo, o artista que levou essa redefinição às máximas conseqüências foi o francês Marcel Duchamp. Atenta à relação que se estabelece entre arte e linguagem, sua obra – realizada a partir das primeiras décadas do século XX – ultrapassou a estética para travar um diálogo profícuo com a filosofia, a ciência, a semiótica e a política. Dos ready-mades às últimas obras, Duchamp inaugurou um novo modus operandi, em que a maior parte das convenções artísticas tradicionais – do fatura manual aos conceitos de originalidade e autoria – tiveram que ser revistas, abrindo um novo campo prático e teórico às artes. Esse campo duchampiano, ancorado mais no conceito do que na forma do objeto artístico, redirecionou parte significativa do pensamento artístico e cultural, tendo grande ressonância em movimentos fundamentais da chamada “arte contemporânea”, como a Pop Art, o Minimalismo e a Arte Conceitual.
          A partir daí, um sem número de teorias preocupadas em abarcar esse novo regime de produção artística floresceram nas mais diversas áreas que, por sua vez, num processo dialético, passaram a se relacionar diretamente com a práxis artística. Em consonância com movimentos como o Neoconcretismo, que buscavam uma participação efetiva do público, tornando-o parte integrante da obra, algumas teorias postulavam idéias como “a morte do autor” (Roland Bartehs) ou “a obra aberta” (Umberto Eco), que propunham uma outra forma de leitura para as obras de arte, não mais vistas como um enigma a ser decifrado, com um sentido fixo, único e imutável; mas como algo a ser deslindado no processo da recepção, enfatizando assim o papel do leitor/espectador na construção dos significados.
          Outros movimentos como Fluxus, Land Art, Earth Art, Body Art, Arte Povera e Hiperrealismo, cada um a sua maneira, partiram para uma relação mais direta com a realidade e a própria vida, entendidas com espaços de múltiplas dimensões: ontológicas, geográficas, ecológicas, econômicas, sociológicas, éticas, políticas, existenciais e até ficcionais. A dialética arte-vida talvez tenha se intensificado a partir do esteticismo romântico que, a partir do século XIX, buscavam transformar a existência em um fenômeno estético. De Baudelaire a Wilde, de Schopenhauer a Nietzsche, da beat generation a Foucault, a experiência estética foi sublinhada como prática existencial que não se dissocia do trabalho intelectual.
        Esses movimentos legaram à produção artística atual a possibilidade de estabelecer associações e até interferir em contextos bastante ampliados da realidade, inferindo sobre temáticas e problemáticas muito variadas, adotando como marca distintiva a diversidade de formas, meios, suportes e discursos, que abarcam tanto questões da esfera pública e universal quanto os espaços locais e os domínios da intimidade.
        Desse modo, a relações arte-vida-pensamento são mais complexas do que pensavam os gregos, que associavam a arte à idéia de “imitação” (mimesis). Em “A decadência da mentira”, Oscar Wilde valoriza a imaginação e o potencial da arte como agente transformador da vida humana, afirmando que “a vida imita a arte”. Esse dito célebre talvez seja tanto mais verdadeiro após a década de 1960, quando, de acordo com Andreas Huyssen, a arte e a cultura parecem ter deixado de ser encaradas como lazer e entretenimento, para se converterem numa das mais importantes esferas de construção das identidades, que a partir de então “se adotam provisoriamente e se articulam mediante pautas de vida e complicados códigos subculturais”. Como as identidades vêm sofrendo mudanças estruturais, passando por processos de hibridização e se tornando o que Stuart Hall denominou de “celebrações móveis”, a arte e da cultura se tornam ferramentas cada vez mais necessárias nos processos de interpretação do mundo atual.
         No atual contexto globalizado, o crescimento e a proliferação da atividade cultural em diferentes regiões do planeta, acabou por promover uma diversidade de configurações que se confluem e se entrelaçam, paralelamente aos sistemas de comunicação, gerando fluxos e redes. Nesse espaço multifacetado, tem ocorrido uma desterritorialização da indústria da cultura e a produção cultural tem se transformado num dos mais importantes domínios da economia mundializada. Entretanto, contrariando os prognósticos mais pessimistas e unilaterais de Adorno e da Escola de Frankfurt, o estado atual não é de pura degeneração e a cultura não foi “liqüidada”. Melhor seria interpretar o momento atual como sendo uma nova etapa da modernização da própria sociedade de consumo, em que ocorre uma redefinição do papel das artes e da cultura, e assim, do debate intelectual em torno dessas questões.
         Com o fenômeno da globalização, os conteúdos artísticos e culturais circulam e interagem em escala planetária, ao mesmo tempo em que abrigam a diversidade e a heterogeneidade, de modo a incorporar as inovações. Nesse novo regimento de produção artístico-cultural, as artes se tornam híbridas e mais permeáveis às transgressões de suas próprias fronteiras, ao mesmo tempo em que circunscrevem em suas práticas e estratégias propostas de reflexão de caráter multidisciplinar, alindo-se aos “estudos culturais”, à sociologia e à política. Exemplos nítidos dessas mudanças são observados desde a década anterior em algumas edições da Bienal de Veneza. Em 2006, a 27a. Bienal Internacional de São Paulo também apostou nessa tendência, apresentando, mais do que apenas uma mostra de arte, uma série de ações e projetos que, reunidos sob o tema “como viver juntos” – sintomático dessa nova paisagem cultural –, focalizava as relações das práticas artísticas atuais com as grandes questões suscitadas pelo debate contemporâneo. Também a Documenta 12 – cujos projetos já se iniciaram e apresentará a exposição coletiva entre 16/06 e 23/09 na cidade alemã de Kassel – apostará na relação arte-política, de acordo com o seu curador-geral, Roger Martin Buergel.
        Dando seguimento a essas reflexões aqui esboçadas, o evento “Verão Arte Contemporânea” – que acontece em Belo Horizonte entre os meses de fevereiro e abril, nos teatros públicos Francisco Nunes e Marília, além de parcerias com outros espaços da cidade – se estrutura a partir de uma visão atualizada das relações de produção artística na atualidade e pretende investir na busca e reflexão de linguagens estéticas comprometidas com o nosso tempo. Optando pela contaminação das diversas áreas artísticas como teatro, dança, música e artes visuais, através de espetáculos, palestras e até de uma exposição – o “Salão QuasiArte”, que ocorre entre os dias 13 de fevereiro e 1o. de abril no foyer do teatro Francisco Nunes –, o evento pretende promover um encontro produtivo entre o público e os artistas, ampliando as perspectivas de ações artísticas na cidade.
        Qual o papel e o lugar das artes e da cultura nas sociedades contemporâneas? Provisoriamente, responderemos que esse papel está sendo redirecionado e que esse lugar é o movimento. E que a paisagem atual é movente.


Luiz Flávio é professor do curso de pós-graduação História da Arte, na PUC-Minas (PREPES). Foi professor de Estética da Escola Guignard/UEMG, de1999 a 2006. É também artista plástico, representado pela galeria Thomas Cohn, em São Paulo, onde vive atualmente.

 

 

 



 

 

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