O Grupo
O Grupo

INDICAÇÕES DE TEXTOS PUBLICADOS NO SITE DO GOM

 

Bandoneón e Rufo Herrera
Rufo Herrera 15.04.2001 Belo Horizonte - MG


Numa noite de julho de 1938, me apareceu o duende. Tinha eu apenas cinco e não foi nem susto nem medo, foi paixão, com certeza, o que senti ao ouvir o acorde inicial de um velho tango que, fraseando um dialeto de outros mundos, me disse: “vem, eu te levarei de encontro ao teu destino”.

Mas, na minha realidade de oitavo filho de um camponês violeiro, e até “payador” na sua juventude, Dom Pedro Herrera, as coisas não podiam acontecer magicamente, mas somente segundo a nossa condição social e geográfica.

Foram três anos de batalhas sem tréguas para convencer alguém de que eu conseguiria tocar esse instrumento de tão complicada técnica de execução até que, num glorioso dia de 1941, Zenóbio, um dos meus irmãos mais velhos e a quem dedico esse trabalho [o CD “Bandoneón”] in memoriam, chegou em casa com um velho bandoneón já muito usado, porém, era o que tinha conseguido trocando por uma igualmente velha máquina de CD de marca Remington e algum dinheiro do seu soldo, pois, já era funcionário público na cidade de Córdoba (Argentina).

Conheci o meu primeiro mestre de bandoneón: Pedro Garbero, um dos maiores virtuoses do badoneón que já ouvira até agora. Ele me iniciou na música de Bach, na qual estava toda a base da minha futura formação, tanto como instrumentista, quanto como, posteriormente compositor.

O fato é que, partindo de uma cultura zero, aos dezesseis anos podia me considerar um músico culto e preparar para experimentar a fusão entre a música popular e o tango (o que estava no auge no fim da década de 40) e a música erudita que era a minha inspiração maior. Embora já intuísse que o preço fosse a dificuldade financeira e o semi-anonimato, que sempre coube à música séria neste nosso meio sociocultural, em que temos que conviver com a sensação de que estamos “fora de tempo ou de lugar” (ou as duas coisas).

Mas isso era muito pouco para me desanimar. Continuava tocando em orquestras de tango às noites e estudando oito ou dez horas por dia, até que em 1956, recebi um convite para gravar com uma orquestra de tango em Buenos Aires, na época, a “Meca” da cultura na América Latina.

Em 1960, e depois de ter percorrido pelas melhores orquestras de Buenos Aires (também por um infinito número de pensões, pois nenhuma me tolerava por mais de três meses, “porque esse bandoneón soando o dia todo, todos os dias, causava evasão dos vizinhos de quarto”), lá ia eu me mudando para outra. A dificuldade de sobreviver também se agravava: o tango estava entrando em declínio e, então, começou a faltar trabalho para orquestras desse gênero musical.

Porém, naqueles anos eu tinha um sonho e acreditava que ele poderia me levar a qualquer lugar. Literatura musical para bandoneón quase não existia. Tinha que transcrever as valsas de Chopin, os prelúdios e fugas de Bach, fazer arranjos virtuosíssimos de tango, choros e outros gêneros. Foi com esta bagagem que saí pelos países da América, com a esperança de que o público “culto” reconhecesse meu trabalho, minha evolução no instrumento e a minha aspiração de elevar a um patamar digno este instrumento tão maravilhoso quanto os outros já consagrados pela história da música. Mas quem é que queria vestir trajes de concerto para ouvir este instrumento de Cabaré?

Me pediram para tocar o tango “Garufa”. Assim carreguei minha decepção por seis países e cheguei ao Brasil, o sétimo. Uma noite, tocando numa casa noturna, na rua Timbiras [Belo Horizonte], chamada “El Greco”, tive de tocar o tango “Garufa” vinte e duas vezes. Guardei o bandoneón como concertista e resolvi me dedicar à composição; “ao encontro com o destino”.

Em 1986, Astor Piazzola e seu quinteto chegaram ao Grande Teatro do Palácio das Artes de Belo Horizonte para um espetáculo. Fui lá ouvi-lo, como que para matar as saudades e não acreditei: o teatro de 1880 lugares estava lotado para ouvir um bandoneón.

Fui um dos primeiros seguidores de Astor, aos 14 anos, e acompanhei a sua luta de mais de 30 anos para chegar a esse ponto. Fui abraçá-lo, emocionado, e ele me deu uma leve puxada de orelha: “e o bandoneón”? Senti remorso, senti vergonha.

Voltei para casa e, no dia seguinte, tirei o meu bandoneón da capa empoeirada, tratei, “pedi perdão”, levei a São Paulo para afinar e voltei a estudá-lo, a tocá-lo. A minha velha paixão explodiu com uma força que eu não conhecia. Formei o quinteto “Tempos” e voltei aos palcos, à luta, ao prazer de oferecer para o público “meus semelhantes” um som que faz bem para a alma. Voltei à minha incumbência de doar o que há de melhor em mim; ao meu supremo reencontro com aquele duende que me sussurrou naquela longínqua noite de julho de 1938: “segue-me que eu te levarei de encontro ao teu destino”.

 


 

 

 

Espetáculos do GOM
Espetáculos
Fotos do GOM
Fotos

Vídeos do GOM
Vídeos

Confira a agenda do GOM
Agenda
Eventos do GOM
Eventos
Livro GOM 30 anos
Livro do GOM
Material gráfico
Material gráfico
Clipping
Clipping
Em breve
GOM indica
Contato do GOM
Contato

Home