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INDICAÇÕES DE TEXTOS PUBLICADOS NO SITE DO GOM

 

Em busca da linguagem
Texto publicado no "Caderno Pensar", do jornal Estado de Minas, escrito por Ione de Medeiros


Falar da linguagem teatral hoje implica em levantar questões que servem para todos os artistas de qualquer área da criação. O que interessa é, em primeiro lugar, o próprio fator linguagem, ou seja: “lingua-agem: conjunto de sinais falados (glótica), escritos (gráfica) ou gesticulados (mímica) de que se serve o homem para exprimir suas idéias e sentimentos. Linguagem define-se também por qualquer meio que sirva para exprimir sensações ou idéias”. Na arte este conceito assume uma característica própria, uma vez que exclui conveniências e pragmatismos.
Exprimir idéias por parte de um artista significa responder a necessidades do inconsciente, abordar questões que fazem parte de nosso repertório de dúvidas, sonhos, anseios, desejos, frustrações, assim como falar de nossa vulnerabilidade enquanto seres humanos. Significa também responder a nossos processos particulares de criação, que fazem com que possamos escolher este ou aquele meio de expressão e a partir daí elaborá-lo e tentar levá-lo à perfeição.
Na linguagem artística, quem fala, para quem fala e como se fala tecem juntos a trama da comunicação onde entram muitas questões a serem discutidas. Começando por aquele que elabora a sua linguagem, o autor de sua fala, dividido entre seu consciente racional, emocional, sensível, e seu inconsciente pouco palpável que, aflorado, tende a surpreender o próprio autor. É comum para o artista perguntar-se como chegou a um determinado resultado, não sabendo precisar os caminhos percorridos no seu processo de criação. Quando mudou? Por que mudou? Na elaboração de sua linguagem, a quem o autor deve fidelidade? À sua percepção mais profunda ou a sua visão racional comprometida com resultados e garantias de eficácia na comunicação imediata?
Evidentemente aqueles que seguem o caminho menos palpável correm o risco de ser questionados com aquela pergunta pouco estimulante: para quem esta arte? Para vocês mesmos? Quanto a isto, só podemos agradecer àqueles que não se fragilizaram com esta acusação, ou que se auto-exilaram em seu próprio país, assumindo seu isolamento. Não fosse isto, os abstracionistas, por exemplo, jamais teriam abandonado a figura, assim como não existiriam autores como Proust redimensionando o discurso literário a partir da sua memória afetiva, ou Joyce, Souzândrade, Mallarmé, Guimarães Rosa, Juan Rulfo e muito menos Marcel Duchamp, elegendo um mictório como obra de arte (‘‘Fountain’’) numa provocação escancarada à arte oficial dos museus e academias. Também não teríamos o cinema de Alain Resnais (“O Ano Passado em Marienbad”) ou a música de Debussy ou Stockhausen revendo a construção musical, ou a dança de Diaghilev ou Oscar Schlemmer, todos eles juntos formando uma grande constelação de criadores que irromperam até meados do século abrindo as portas para a arte contemporânea.
Então, no processo de construção da linguagem por parte do artista, fica a pergunta: a comunicação tem que se dar no momento exato em que a linguagem é transmitida? Ou ela pode ter um efeito retardatário, vindo a ser efetuada fora do tempo em que foi elaborada, respondendo ao impulso inovador do artista e respeitando o tempo do próprio público em codificar e assimilar as novas idéias? A primeira dúvida se verifica na relação da dualidade entre o sujeito que se expressa, dividido entre estas duas realidades. É o caso do artista que teme não ser compreendido ou aceito e acaba se traindo na sua identidade, frustrando seu desejo mais profundo de representação.
Quantos são capazes de um mergulho que dissolva esta dicotomia, fazendo do criador um ser único atuando nos dois níveis de percepção – consciente e inconsciente – segundo o próprio fluxo da criação, e arriscando acertar ou falhar no seu diálogo com o público?
A segunda dúvida se estabelece na relação com o receptor, ou seja, com aquele para quem falamos. Como determinar este público? Quem é o público do teatro hoje, por exemplo? Ele tem um perfil definido? Como vão interferir neste delineamento as diferentes culturas, os fatores sociais, emocionais, os interesses políticos, construindo opinião, os meios de comunicação forjando valores e criando necessidades absolutamente transitórias? Existe um público, ou quantos públicos existem? E, existindo um público, qual a perspectiva de estabilidade ou coerência deste público com valores adquiridos, uma vez que ele também está sujeito às mesmas influências dos modismos ou vulnerável aos apelos de satisfação imediata que rondam os meios de comunicação? O fato é que não contamos com uma educação básica que construa no indivíduo uma consciência de suas necessidades primordiais. As necessidades vêm vindo de fora, adequadas muito mais ao sistema do que ao indivíduo. Então, que diálogo estabelecer com o interlocutor? Devemos estar sempre perguntando: o que o público está querendo ouvir, restringindo-nos a efeitos superficiais e conseqüentemente negando o potencial transformador da própria arte? Ou vamos apostar na condição de nosso interlocutor enquanto ser sensível, capaz de elaborar, construir e decodificar símbolos, ou seja, vamos superestimar o público, acreditando na sua participação criativa neste diálogo?
A terceira questão se refere à relação produto/embalagem ou a equivalência entre os parâmetros forma/conteúdo. Como falar? O que falar? O que permanece, o que muda na estruturação da linguagem? Podemos encontrar uma resposta filosófica na literatura de Osman Lins, ao abordar o tema da mutabilidade e imutabilidade transcendental no seu romance “Avalovara”.
Osman Lins foi um romancista brasileiro que teve uma obsessão: a busca radical de uma nova narrativa pautada na quebra da estrutura linear do discurso convencional no romance. Para ele, a criação literária não era algo passivo, que se resumisse numa história a ser contada. Ele propõe então esta problematização, acreditando também que ela atualiza e impulsiona a criação. Ele rompe com o discurso linear, ou seja, a história com princípio, meio e fim. Ele propõe um poema geométrico. O que é esse poema geométrico de Osman Lins? É um poema estruturado dentro de um quadrado e de uma espiral, figuras geométricas que vão sustentar a base da evolução do seu romance. O título “Avalovara” já tem um sentido bastante curioso, pois é o nome de um pássaro grande feito de muitos pequenos pássaros do tamanho de uma abelha, como se fosse uma nuvem de pássaros. O que ele quer dizer com isso? Que as partes e o todo têm o mesmo sentido. Na estrutura de seu romance, a parte vale por si. Por isso você pode ler este livro começando por qualquer uma delas, uma vez que o todo é a soma dessas partes. Juntas vão dar conceito de conjunto. O romance é por sua vez estruturado sobre uma frase cujas letras estão distribuídas em um quadrado mágico. A frase contém cinco palavras e cada palavra, por sua vez, cinco letras, e reflete no seu todo a questão da mutabilidade e imutabilidade transcendental.
‘‘Sator arepo tenet opera rotas’’.
Esta frase pode ser lida da esquerda para a direita e vice-versa, ou de cima para baixo ou de baixo para cima, mantendo sempre o mesmo sentido, e tem a seguinte tradução: ‘‘O lavrador mantém cuidadosamente a charrua, o arado, nos seus sulcos (O lavrador mantém cuidadosamente a ordem no mundo)’’.
Nesta composição entram apenas oito letras que, distribuídas pelos quadrados menores, constituem as oito linhas da narrativa. Nos 25 quadrados que formam o quadrado grande se mantém a espiral que, no seu percurso, passa por cada um dos 25 quadrados, determinando a linha temporal e dramática da narrativa. A frase deve representar a mobilidade do mundo e a imutabilidade do divino. A imutabilidade do divino encontraria sua correspondência na imutabilidade da frase (que permanece a mesma, lida em qualquer sentido) enquanto a mobilidade do mundo teria sua réplica nas variadas direções seguidas para a leitura.
‘‘Sator arepo tenet opera rotas.’’ Ou ‘‘O lavrador sustém cuidadosamente a charrua nos sulcos.’’ Ou ‘‘O lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita.’’ A frase atende também ela aos princípios de mobilidade e imutabilidade:
“Sobre um campo instável, o mundo, reina uma vontade imutável. Difícil encontrar alegoria mais precisa e nítida do criador e da Criação. Eis o lavrador, o campo, a charrua e as leiras; eis o Criador, Sua vontade, o espaço e as coisas criadas. Surge-nos o universo, evocado pala irresistível força desta frase, como uma imensa planura cultivável, sobre a qual um vulto faz surgirem, brilhantes, para em seguida serem incendiadas ou ceifadas ou esmagadas sob patas sangüíneas de cavalos, as suas lavouras, plantas, heróis, bichos, deuses, reinos, povos, cidades, luzeiros celestes. Idêntica é a imagem do escritor, entregue à obrigação de provocar, com zelo, nos sulcos das linhas, o nascimento de um livro, durável ou de vida breve, de qualquer modo exposto – como a relva e os reinos – aos mesmos cavalos galopantes. Apesar desta certeza, desta ameaça, nenhum descuido é aceito. Sustém-se, com zelo e constância, a charrua no seu rumo.”
Para manter-se viva a linguagem teria que se respeitar estes mesmos princípios de mutabilidade e imutabilidade ao qual o autor de “Avalovara” se refere. Esta é a grande dificuldade a ser vencida pelo artista. Ele tem que ser sensível às mudanças sem cair no vazio de uma adequação superficial à modernidade. O seu produto deve ter o respaldo de uma embalagem que contribua para a clareza daquilo que se quer dizer hoje, para o público de nosso tempo. E aquilo que ele diz deveria estar atendendo à permanência dos valores humanos atemporais que sustentam nosso espírito e alimentam nosso ideal de transcendência, assim como respondem aos nossos desejos, sonhos e frustrações inconscientes.
Desta coerência e adequação entre forma e conteúdo, desta percepção entre os valores mutáveis e imutáveis no fenômeno da comunicação é que se pode construir, hoje ou em qualquer época, uma linguagem que fale para alguém com certa eficácia. Mesmo que este interlocutor não dê sua contrapartida de forma imediata ou, independentemente daquilo que o artista quer dizer, e como dizer, a linguagem tem que ser viva. O teatro, sobretudo, por seu caráter de interlocução direta, não pode se sujeitar a transformar-se numa língua morta e obsoleta. Ele tem que buscar a palavra onde ela estiver, tornando-a vital. Ele tem que construir a sua história e tecer sua trajetória sempre pautada no seu compromisso maior com a arte, garantindo também sua própria sobrevivência enquanto artista.

 

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