INDICAÇÕES DE TEXTOS
PUBLICADOS NO SITE DO GOM
BELO HORIZONTE, A CIDADE
DO IMPALPÁVEL!
Texto de Ione de Medeiros
-11/12/2004
...-A senhora vai me dizer o seu pensamento sobre tudo isto, pois não
sabe disfarçar...Eu não quero ir-me embora debaixo da
impressão de que me quer mal...
-Mas eu não lhe quero mal...- e peço desculpa se disse
alguma coisa que lhe desagradou.
O que me desagradou foi o que a senhora não disse!
-Então não sei...
-Sabe sim!...
(“A menina morta”Cornélio
Penna)
Quando o consagrado escritor mexicano Juan Rulfo esteve em BH, comentou
que esta cidade poderia ser considerada a capital da América
Latina. Talvez o autor de Pedro Páramo, cujo realismo fantástico
elimina as fronteiras que separam os vivos e os mortos, tenha percebido
que aqui pairava o mesmo gosto pelo insólito e a mesma irresistível
atração pelo mistério, que fazem o fascínio
de sua literatura e a sedução de nossos habitantes.
Quem sabe não lhe soou
familiar o caráter insondável deste povo centrado em Minas
Gerais, enigmático como as montanhas que os cercam? Não
teria ele percebido em nossa própria natureza a presença
do impalpável ou do indecifrável que apenas se intui,
similar à geografia mineira, com seus relevos e reentrâncias
onde algo permanecerá sempre oculto? Quem sabe não lhe
instigou em nosso povo um imagético “efeito malacacheta”
, como um glossário de camadas superpostas, pedindo e negando
ao mesmo tempo o descascamento? Não lhe teria fascinado também,
penetrar nosso universo de meias palavras onde se aprende a ler o que
não está escrito, ouvir o que não foi dito, a entender
o gesto apenas esboçado, e a colher no ar o que ainda nem aconteceu?
Talvez aqui ele tenha encontrado
seus parceiros, assim no meio da rua, escrevendo nas paredes, pichando
muros, ou vendendo livros nos sinais de trânsito, num desejo manifesto
que herdamos de, silenciosamente transformarmos o sonho em imagens ou
em palavras escolhidas e catadas uma a uma. Pode ser também que
ele tenha se encantado com os inocentes dedos de prosa, dados aqui e
ali, tendo mais tarde percebido que existia um “algo a mais”
naquela conversa fiada, pois que filosofavam. Sim, porque aqui se filosofa
o tempo todo por qualquer motivo não importa o lugar assim como
se faz política na fila do ônibus, no aconchego de um cafezinho
ou até mesmo quando se pede um desconto na lojinha da esquina.
O pequeno é rigorosamente
importante. Escapamos do barroco ostensivo para cairmos na iluminura
Roseana de um presépio que faz brilhar o detalhe e valoriza o
pequeno, mapeando com gestos sutis e diversos os quatro cantos da cidade.
Aqui o progresso não amorteceu a originalidade e nem nos privou
das legítimas angústias. Religiosamente mantemos nossa
tradição de sofredores convictos, e, incredulamente, apostamos
em mudanças impossíveis sabiamente adiando uma possível
e ilusória felicidade. Não seria esta a verdadeira chama
que nutre o imaginário de nosso povo e que lhes dá um
sentido na vida? Existe sabedoria e coragem maior do que se manter esperando,
quixotescamente olhando de frente para o escuro? Não seria esse
nosso ponto de ligação com o desconhecido e com o mistério
da vida e da morte? Então Juan Rulfo deve ter se sentido em casa
e se encantado com nosso encantamento.