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ISTO
É UMA BICICLETA...
Ione
de Medeiros
No ano de 2005, passando
pelo parque Halfeld na cidade de Juiz de Fora (MG) encontrei o homem
da bicicleta. Na realidade este personagem é um viajante
que vem percorrendo o Brasil coletando objetos, coisas animadas ou inanimadas,
tais como animais vivos como um rato engaiolado, ou coruja, gafanhotos,
rãs e morcegos empalhados, estes com alfinetes de mola na orelha,
aranhas mortas ou sua réplica em plástico, feto de tamanduá
num vidro, conservado em formol, casco de tatu, caveira de cabra, pés
de gavião, caveirinha humana de plástico, além
de placas de veículos das diversas cidades que percorreu, carteiras
de identidade, bonecas de borracha com
bochechas perfuradas com seringa, chave de fenda, escova de dente, barbeador,
ou lápis, o louro José em plástico, capa de celular,
bandeira do Brasil, abridor de latas, notas de dinheiro antigo, dentadura,
fitinhas do Senhor do Bonfim, chaveiros, relógios de diversos
tamanhos distribuídos em série, ferradura de animal, mini-moto
de brinquedo, cartelas de pílulas de anticoncepcional, terços,
crucifixo, calcinha feminina, colares, bolsas de mulher, talheres, tais
como uma colher torta, além de alguns elementos híbridos
tais como boneco de plástico do He-Man com cabecinha de pássaro
empalhado, e muito mais, num inventário de mil e um objetos,
organizados sem qualquer critério hierárquico. Assim,
à sua maneira ele re-organiza o mundo. Se existe uma triste expressão
que lamenta aquele que carrega o mundo em suas costas, este
bem humorado viajante carrega o mundo numa bicicleta e esta, numa dupla
função, o carrega pelas estradas de todo o país,
uma casa/ bicicleta ambulante, uma morada/ móvel e o seu condutor,
promovendo uma reconstrução contínua do mundo.
Ele
esteve recentemente em BH. Aqueles que se permitiram parar para observá-lo
perceberam como ele é cuidadoso ao escolher o local para cada
novo objeto, sem explicitar o critério segundo o qual ele o insere
neste mundo aparentemente caótico. No entanto, ali se instala
uma ordem que nos escapa, pois é fruto de sua mente profundamente
criativa e livre de qualquer conceito estético já estabelecido.
Neste projeto arquitetônico sempre renovado, ressalta aos olhos
o exercício da livre escolha e o fluxo delirante de um artista
que, sem qualquer pretensão conceitual nos coloca frente a frente
com um mundo real totalmente reconstruído e recodificado. Diante
desta realidade tão familiar e ao mesmo tempo tão inusitada,
e inapreensível, cabe uma pergunta: Realmente, o que é
a realidade?
Como diria o escritor James Joyce: Modalidade do visível
vista através dos meus olhos.