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INDICAÇÕES DE TEXTOS PUBLICADOS NO SITE DO GOM

 “A acusação” do Grupo Ofccina Multimédia - BH, no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto

IMAGENS DE DÚVIDAS E ABISMOS
Críticas: Antonio Cadengue | “A acusação” | 24/7/2006
divulgado no site do Festival de São José do Rio Preto

Joseph K. é o personagem chave no espetáculo “A acusação”, pelo Grupo Officina Multimédia, de Belo Horizonte, com direção, roteiro, concepção cenográfica e figurino de Ione de Medeiros. O texto inspirado livremente em Kafka, tendo por base “O processo” que em breves palavras trata-se de uma história na qual um empregado bancário, Joseph K. é acusado por um tribunal invisível, de um crime que ele desconhece e que no desenrolar da trama, não se revelará, pois esta informação lhe será ocultada até o fim da fábula. Informado que estava sendo acusado, sem saber por quais razões, Joseph K. contrata um advogado, tenta obter apoio de aliados, mas tudo em vão. Vai deparando-se diariamente em seu longo processo com corredores, salas, funcionários corruptos, ineptos, tudo se arrastando com negligência, lentamente, de uma instância a outra até que dois funcionários e algozes, deste tribunal invisível, o executam.

Nesta hierarquização do mundo, em que angústia se torna cada vez mais sufocante, o personagem vai vendo sua frustrada tentativa de saber as razões pelos quais é acusado, esvaindo-se. O espetáculo prima pela materialização deste aspecto aterrador da existência humana, através uma sofisticada cenografia construída a partir de uma estrutura metálica, cheia de escadas, rampas, portas, carrinhos de supermercado, mesas de escritório, cadeiras, telefones, aparelhos de estenografia, baús... Além de dar suporte à encenação projeções de cenas que acontecem simultaneamente ou não as realizadas no palco, vozes em off, largo uso de microfones, enfim um dispositivo cênico que se filia a um certo expressionismo, e a um certo construtivismo. E uma (in)certa pós modernidade.

Esta cenografia que, para mim torna-se um dos elementos basilares do espetáculo, é o diálogo possível que a diretora estabelece com o artista gráfico holandês, Maurits Cornelis Escher, conhecido especialmente por suas obras que representam construções impossíveis.

Sem cair nas armadilhas surreais, Escher, como Ione de Medeiros, também responsável pela cenografia, explora padrões geométricos, sem ornamentalidades, transformando cada um dos elementos que compõe a cena, num jogo em que redimensiona perspectivas, sistematizando uma visível experimentação formal. Ambos criam mundos irreais, e virtualidades. Esta primeira visão do mundo kafkiano de Ione através dos olhos de Escher exige muito do espectador, pelas mutações de cena e pelas intervenções multimídia, que propositadamente levam-nos a um mundo labiríntico, tal aquele que povoa a obra de Kafka. Neste aspecto há uma sintonia entre as linguagens particularizadas destes três criadores – Kafka, Ione e Escher - que pode nos deixar ainda mais atônitos se por um deslize qualquer do olhar, perdermos de vista uma de suas inumeráveis ações coreografadas.
Tudo vai requerer um segundo ou terceiro ou quantos olhares se façam necessários para que as dúvidas que pairam sobre outras dúvidas – as do próprio texto e seu espelho na encenação - possam aliviar os tortuosos e espinhosos caminhos que o ser humano, metaforizado na peça pelo Joseph K e seu tribunal invisível, materializado em cena pelos poderes da teatralidade. Estamos no teatro, reino do aqui e agora, ao contrário da obra na qual se baseia onde o tempo pretérito é fundamental para o leitor. Aos espectadores desta livre adaptação da obra kafkiana resta-nos “entender” o quanto de “reificados” ficamos: já não nos é possível entrar no reino dos céus, nem temos mais como expurgar a nostalgia de um paraíso perdido.

Nesta cena “difícil” a primeira vista, nos surpreendemos e a tomamos como inapreensível. Mas trata-se apenas de ilusões de ótica? Nesta cenografia o espetáculo se desenrola como uma celebração grotesca do “duvido logo existo?” Como ler, recepcionar, fruir esta decantação do mundo pela distorção de significados e significantes? Há muito a ver, mas por vezes os olhos cansam e os ouvidos já não discernem o embaralhamento deste mundo de pesadelo, onírico, independente da via cômica grotesca que o espetáculo, por vezes, tenta imprimir. Ou seria um delírio meu/nosso ter visto um Lula presidente, numa certa cena, a falar com um funcionário de alto escalão, abrindo-lhe os olhos para a realidade que também aos seus olhos pareciam indistintas? Desinformados os altos funcionários ou seu chefe? Sabem ou não como conduzir “acusações”? Seria um “Officina conta Kafka?” para diminuir a distância entre a obra do autor e a realidade na qual se insere o espectador e sua recepção?
Ione de Medeiros é uma diretora consciente de seu metier e sabe usar todos os recursos, de forma orgânica, usando e abusando, mas sem cair na facilitação poética dos recursos estilísticos, que vão do grotesco ao distanciamento brechtiano das marionetes de Kleist aos bonecos japoneses; da “supermarionete” de Gordon Craig ao clima de um teatro da morte de Kantor. Encenação cheia de citações, embora de feição própria, mas sem que as partes dos corpos desmembrados, bustos, torsos, objetos inanimados, mas cheios de significação sejam menos aterrorizantes neste primeiro olhar do espectador. Temor nosso neste ato crítico de repensar sobre o sério trabalho do Grupo Officina Multimédia. Espetáculo em que várias linguagens se entrecruzam sob uma trilha sonora que acentua o terror, mas em sendo paródia, tudo arrematando com sutil ironia. Por vezes tão sutis que fica difícil de imaginar se elas não escorregam demais pelas pranchas e ficam enterradas em baús para serem percebidas apenas por iniciados.

Mas Ione de Medeiros sabe muito mais: sabe o quanto significa a literatura de Kafka para a literatura moderna, sabe tanto que se dá ao luxo de transformá-la, por vezes, numa história em quadrinhos. Sabe refazê-la no palco sem pedir licença aos kafkianos dos palcos brasileiros ou internacionais. Apenas se ombreia a eles. Sabe ainda do humor negro do autor e pode brincar com portas, que sempre estão a se dizerem caminhos de comunicação ou de incomunicabilidade, prisão e liberdade vigiada, analogias entre o público e o privado (e até entre o pudor e a lascívia), porque tem a familiaridade com a juventude inerente ao personagem e ao elenco com que trabalha.

Com extrema delicadeza os conduz a um jogo, que por mais distante aos meus olhos, pode superar ou acentuar as amarguras de uma existência sempre abissal, de solidão, de frustração incessante, apesar de todos os esforços para reencontrar o caminho que os tira do atoleiro desumanizante da própria vida. Sabe ainda mais que as relações entre poderes, ordem econômica, judiciária, VERSUS indivíduos antiheroicizantes, fazem parte de uma estratégia de coloração política na atualização estética coerente na sua trajetória como encenadora. Daí o seu despudor em ser fiel ao espírito kafkiano de despsicologizar o personagem, como o narrador kafkiano já o é, atraindo o espectador a participar das experiências sem saída de Joseph K, mas também aos próprios limites desta experimentação cênica vigorosa, que na repetição incessante de seus procedimentos, acaba por se fechar em si mesma. Esta afirmação, que NEGA boa parte do que escrevi acima. É que em Kafka AS NEGAÇÕES SOBRE NEGAÇÕES insistem em nos desafiar e, aqui, apenas impressões de um ato crítico que reconhece a encenação como repleta de qualidades, mas que se confessa não se ajustar inteiramente às imagens que se dão a ver em cena. Mas que por sua coragem em torná-las vivas, só lhe resta aplaudir. Com distância e admiração.


 

 

 



 

 

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