INDICAÇÕES DE TEXTOS
PUBLICADOS NO SITE DO GOM
Surplus, de Erik Gandini:
um comentário
Nilcéa Moraleida
Bernardes (*)
Meu comentário acerca
do filme de Erik Gandini divide-se em duas partes: na primeira, pretendo
sublinhar certos temas que o vídeo-documentário nos sugere,
sendo que alguns deles já foram referidos pelo meu colega de
mesa Márcio Bucholz. Na segunda parte, quero levantar alguns
aspectos da relação entre arte e política hoje,
que acredito terem estreita relação com esse filme, com
o vídeo“Anuncie Aqui”e com a intervenção
cênica apresentada pelo Oficcina Multimédia antes.
Gandini nos propõe uma
reflexão que parte da batalha nas ruas de Genôva, em junho
de 2001, resultante da repressão à ação
direta dos grupos autogestionários que compõem a rede
de resistência global, que promoveu manifestações
nas ruas de várias cidades do primeiro mundo desde Seattle, em
1999. Esses grupos procuram se diferenciar tanto da multiplicidade das
ONGs que operam mundo afora, atuando dentro da institucionalidade administrada
pelo capitalismo, quanto dos atuais partidos de esquerda. Constituem
uma resistência anti-capitalista e anti-autoritária que
se expressa no espaço das grandes cidades, em estradas e no campo,
além do espaço virtual da internet. Seus manifestantes
buscam impedir a realização de certo tipo de evento (como
as reuniões do G-7, por ex.), a construção de obras
lesivas à vida da sociedade e ao meio ambiente (estradas, usinas
nucleares, aeroportos, etc), paralisando temporariamente a circulação
capitalista, ou retomam as ruas de metrópoles como Londres, em
grandes festas de rua politizadas. A relação dos grupos
participantes, articulados num movimento em rede, tende a ser muito
extensa e livre; no vídeo em questão, focaliza-se diretamente
o Black Block, grupo anarquista favorável à manifestações
anti-capitalistas que incorporam ações de ataque à
propriedades que simbolizam o poderio das corporações
multinacionais. Os membros do Black Block definem-se abertamente como
defensores do “Property Damage” e sem ilusões quanto
à natureza do Estado e do capitalismo; por isso mesmo são
demonizados pela grande mídia mundial, identificados como irracionais
e inconseqüentes.
O vídeo intercala imagens
de manifestações à falas de dirigentes políticos
e corporativos mundiais; cenas do trabalho humano em diferentes e destrutivas
formas contemporâneas à imagens avassaladoras do consumo
atual, e contrapõe esse conjunto aos argumentos do pensador anarquista
John Zerzan, um dos teóricos inspiradores desses movimentos.
A fala de Zerzan apóia-se na recusa das categorias de peso moral
como “violência e não-violência”, buscando
ir além da política convencional e, assim como o vídeo,
produzir contra-significados dentro da ordem hegemônica.
As manifestações
contra o G-7, de Seattle à Gênova, configuram na verdade
aquilo que os historiadores do capitalismo chamaram, ao longo de sua
história, de “motins urbanos”, cuja existência
é registrada desde a Inglaterra dos séculos XVII e XVIII.
Quem conhece a história popular dos países centrais sabe
dos motins contra a fome, assim como nós, nos dias atuais, reconhecemos
o motim urbano nas manifestações das camadas populares
nas grandes cidades brasileiras, contra os transportes coletivos em
ônibus ou trens, que são apedrejados, queimados, destruídos
pela fúria popular contra as empresas que prestam esses serviços.
No caso documentado pelo vídeo, podemos analisá-los também
como situações de indisciplina dos corpos manifesta na
rua, contrapondo à domesticação da democracia liberal
burguesa a ação direta dos cidadãos, numa sorte
de “cólera estratégica” direcionada contra
os interesses das corporações. Essa radicalização
dos manifestantes pretende ser uma alternativa às formas políticas
que se apóiam no puro simbolismo da marcha, apontado por Zerzan
como totalmente inócuo nos dias de hoje. (Nesse sentido, podemos
lembrar, no Brasil, as repetidas marchas do MST - movimento que é
parte da rede mundial que constitui a Ação Global dos
Povos – cujas exaustivas caminhadas pelo território nacional
até Brasília, exigindo punição por massacres
como o de Eldorado de Carajás, não conseguem produzir
resultado eficaz).
SURPLUS aborda de forma contundente
o que se encontra na base dessa cólera estratégica: o
capitalismo contemporâneo, que é caracterizado como devastação
e terrorismo, pela destruição ambiental que promove e
pela destruição dos corpos e da subjetividade humana .
Numa sociedade profundamente narcísica, instala-se o terror da
alteridade e a fuga das relações corpóreas reais;
o terror das “novas tecnologias”, cujo discurso legitimador
exerce evidente função ideológica diante de um
mundo em destruição; o trabalho insano e crescente dos
indivíduos, com a robotização das funções
e o vazio que constitui a vida dos “vencedores”.
Mostra também o esvaziamento
da política como prática institucional, com o domínio
das corporações sobre os governos, a domesticação
vazia da democracia liberal e o aumento da potência de controle
dos Estados, que tendem à transformar-se em Estados Policiais.
Já nos anos 80 o filósofo e urbanista francês Paul
Virilio, estudioso da velocidade e da aceleração tecnológica,
alertava sobre essas tendências presentes na sociedade contemporânea.
Num livro chamado Guerra Pura: a militarização do cotidiano,
Virilio argumentava que elas levariam os estados centrais à reprodução
dos estados policiais militares que então caracterizavam a América
Latina. De maneira semelhante, a generalização das formas
de controle dos espaços arquitetônicos na linha do Panopticon
de Bentham, analisado por Foucault, foi-se tornando uma realidade cada
vez mais presente, associada ao controle do espaço público
por imagens (como nas câmaras que se multiplicam nas ruas de BH),
assim como na destruição dos direitos civis nos países
centrais, nos anos recentes.
Diante disso tudo, a fala de
John Zerzan sugere uma reflexão em diversos momentos do vídeo:
o sistema global é mais liberal e estimula a diversidade ou o
contrário? Pois os lucros são cada vez maiores e a riqueza
mais concentrada, nos povos do norte e na relação com
os povos subdesenvolvidos; as hierarquias sociais são reforçadas,
assim como as hierarquias internacionais. Da mesma forma, o impacto
sobre as subjetividades significa mais distância entre os indivíduos,
mais eficiência, mais trabalho, mais uniformidade e controle,
além de efeitos de privação sensorial e de linguagem.
Quando examinamos as inovações que se abatem sobre a vida
social e o trabalho, e a aceleração irracional e destrutiva
do consumo, pode-se perguntar também: quem decide sobre tais
inovações, quem democraticamente define tais padrões?
Passando à segunda parte
do comentário, quero sugerir alguns pontos acerca do impacto
desse mundo do supérfluo sobre as relações entre
arte e política. Penso que, em lugar de superarmos a reificação
da atividade humana em áreas separadas (trabalho/lazer, estética
e política), na direção da antiarte tão
debatida ao longo do último século, a produção
cultural na lógica desse capitalismo global, como geradora de
riqueza, levou a resultados perversos. Fez agigantar-se a indústria
cultural e seus efeitos de homogeneização; multiplicou
os “tycoons” particulares, os grandes investidores na arte
contemporânea como produto lucrativo nos mais diferentes países
( e o Brasil não fica de fora, com seus bancos, seus investidores
do tipo Edemar Cid Ferreira e os projetos como o Caci, em Minas Gerais),
e promoveu a intensa especulação urbana nos territórios
da cidade ocupados pelos artistas, como ocorreu em Londres, Nova Iorque,
Paris. De forma semelhante, aprofundou-se a institucionalização
da arte em museus que também atuam como grandes corporações
produtoras de lucros (à exemplo dos MOMA, Guggenheim, Beaubourg
e muitos outros) e do séqüito de críticos ligados
à essas instituições, que atuam como criadores
de tendências conformes ao mercado de arte. A arte, no mundo contemporâneo,
passa também por um processo de “comodificação”,
tornado-se uma “commodity” como outra qualquer, uma mercadoria
no grande mercado mundializado. Nesse campo, como nos demais, instaura-se
uma cultura totalitária que tende à banalização
e vive da produção de “celebridades”e de eventos
impactantes.
O vídeo que assistimos
caminha na direção contrária à essas tendências,
como muitas manifestações artísticas intersticiais
atuais. Podemos chamá-lo de exemplar típico do vídeo
de resistência, na linha preconizada pelo Critical Art Ensemble
(EUA), que também se inscreve na concepção política
autogestionária. Ele foge totalmente ao modelo conhecido e tradicional
do documentário de esquerda, que produz “vídeos-monumento”,
obedientes à lógica do entretenimento cultural cuja narrativa
impede o fluxo da interpretação multifacetada do indivíduo,
possuindo um conteúdo totalizante. O documentário realista
na verdade trapaceia, tendendo a tratar o consumidor daquelas imagens
como um rebanho desprovido de capacidade de intervenção
e crítica. O vídeo “recombinante” (que é
produzido a partir de mais de uma fonte, conforme o C.A.E.),do qual
SURPLUS constitui um excelente exemplo, utiliza a deturpação
dos conteúdos e a re-significação das mensagens
como método preferencial, apresentando uma base de dados para
que o espectador tire suas conclusões próprias. Sua origem
remonta ao começo do século XX, com as concepções
dadaístas, e passa pelas intervenções políticas
dos “affiches” e outros meios em 1968, até chegar
aos nossos dias.
O objetivo desse tipo de vídeo
não é produzir um monumento eletrônico, mas um DISTÚRBIO,
e nesse sentido vale conferir a citação abaixo, extraída
do livro Distúrbio Eletrônico, de autoria do coletivo mencionado
acima, publicado no Brasil na Coleção Baderna, da editora
Conrad:
“O momento de confusão
é a pré-condição para o ceticismo necessário
ao surgimento do pensamento radical. Portanto, os objetivos do vídeo
de não-ficção de resistência são dois:
chamar a tenção para a construção simbólica
da simulação e documentá-la; e estabelecer a confusão
e o ceticismo para que as simulações não possam
funcionar.
O vídeo associativo é,
por sua própria natureza, recombinante. Ele agrupa e reagrupa
imagens culturais fragmentadas, permitindo que os significados gerados
vagueiem sem limites pela grade de possibilidades culturais. (....)
Para os propósitos de resistência, o vídeo recombinante
não oferece nenhuma solução. Pelo contrário,
atua como base de dados para que o espectador tire suas próprias
conclusões (....o que) pressupõe um desejo por parte do
espectador de assumir o controle da matriz interpretativa e de construir
seus próprios significados”( CRITICAL ART ENSEMBLE, 2001,
p.: 56).
(*) Cientista política, Doutora em História Social pela
UNICAMP e professora da UFMG; participa do Instituto Helena Greco.