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Estado de Minas
6 . S Á B A D O , 2 9 D E O U
T U B R O D E 2 0 0 5.
Além da ADAPTAÇÃO
O grupo mineiro Oficcina Multimédia opta
pelo processo de transcriação ao levar para o teatro o
romance
“O processo”, um clássico de Franz Kafka
ELCIO CORNELSEN
No último dia 13, estreou
em palcos mineiros A acusação, montada e apresentada pelo
Grupo Oficcina Multimédia, sob direção de Ione
de Medeiros. Aqueles que perderam a curta temporada de estréia
no Teatro Sesiminas terão nova oportunidade de assistir à
peça, inspirada no
romance O processo, de Franz Kafka (1883-1924), hoje e amanhã,
no Teatro Francisco Nunes.
Em primeiro lugar, poderíamos nos indagar até que ponto
seria possível trazer ao palco elementos inspirados em um romance,
e nos enveredaríamos pela eterna discussão sobre gêneros
literários. Todavia, os críticos não se cansam
de apontar na própria obra de Franz Kafka, eminentemente em prosa,
um caráter dramático na composição de cenas,
apoiado pela descrição recorrente de gestos das personagens
e por descrições ambientais lapidares que mais parecem
indicações cenográficas de um roteiro. Aliás,
em Praga, sua cidade natal, Kafka vivenciou de perto, em 1911 e 1912,
a montagem de várias peças de teatro ídiche por
um grupo itinerante oriundo do Leste europeu, no palco acanhado e sem
recursos do Café Savoy, ponto de encontro de grupos de vanguarda
na então capital da Boêmia, uma das províncias do
império
austro-húngaro.
Não se trata de um momento fortuito, mas de uma espécie
de divisor de águas em relação à produção
literária de Kafka, tanto em termos de apropriação
de temas quanto da própria estética dramática,
que, a partir de então, se tornariam elementos constituintes
dos processos de criação literária de obras magistrais,
como as novelas A metamorfose (Die verwandlung; 1915) e Na colônia
penal (In der strafkolonie, 1919), o conto “O veredicto”(“Das
urteil”, 1913), os romances O processo (Der prozess, 1925) e O
castelo (Das schloss, 1926), publicados postumamente, além das
várias narrativas curtas – contos, fábulas e parábolas
-, publicadas em Um médico rural (Ein landarzt, 1919) e, também
postumamente, no volume Preparativos para um casamento no campo e outras
narrativas do espólio (Hochzeitsvorbereitungen auf dem lande
und andere prosa aus dem nachlass, 1931). Aliás, o público
leitor brasileiro tem acesso a essas obras originalmente escritas no
idioma alemão graças às excelentes traduções
de Modesto Carone, publicadas pela editora Companhia das Letras, sendo
que a tradução de O processo rendeu a seu tradutor o Prêmio
Jabuti de 1989.
Podemos dizer que, ao longo das últimas cinco décadas,
criou-se uma certa tradição resultante de adaptações
do romance O processo, escrito por Kafka entre 1914 e 1915, que vai
desde a adaptação para o teatro por André Gide
e Jean-Louis Barrault (Le procès, 1947), ou ainda por Jan Grossmann
(Der prozess, 1968), até as adaptações para o cinema
por Orson Welles (The trial, 1963) e, respectivamente, por David Jones
(The trial, 1993), que propiciaram a divulgação de O processo,
tornando-o um dos romances de literatura universal de maior sucesso.
Portanto, a iniciativa do Grupo Oficcina Multimédia não
em adaptar, como nos exemplos anteriores, mas de transcriar a obra de
Kafka se insere também nessa tradição. Ressaltamos
a noção de transcriação, pois reconhecemos
em A acusação justamente um processo criativo que, indo
além da mera adaptação, lança mão
de um conjunto de estratégias no intuito de criar, não
ex nihilo, se é que
isso é possível em termos de linguagem, mas a partir de
uma obra-prima da literatura universal, uma peça que sinalize
o caráter atual de O processo e que dialogue com a realidade
brasileira.
Nesse sentido, a alteração da ordem seqüencial do
romance O processo proposta no roteiro da peça A acusação,
com a morte do protagonista Josef K. no início, torna-se adequada
em duplo sentido: por um lado, atendeu ao próprio caráter
fragmentário do romance, pois, ainda hoje, questiona-se na vasta
fortuna crítica sobre o romance de Kafka tanto a seqüência
dos capítulos proposta por Max Brod – amigo que recebeu
de Kafka seus manuscritos com a incumbência de queimá-los
– ao organizar o romance para publicação, em 1925,
quanto a provável ausência de outros capítulos,
que se perderam ou eventualmente foram destruídos por Kafka;
por outro lado, adequada ao projeto do Grupo Oficcina Multimédia,
a alteração da ordem seqüencial é justamente
uma das estratégias de transcriação, e não
de mera adaptação da obra de Kafka. Além disso,
enquanto expediente estratégico de transcriação,
a integração do conto “Um sonho” à
peça trouxe de volta um capítulo do romance que Kafka
havia publicado em separado, em 1919, juntamente com Diante da lei,
em Um médico rural. Mas, sem dúvida, o título da
peça é a mais evidente de todas as estratégias
de transcriação, pois a mudança de O processo para
A acusação, aliada à alteração seqüencial
do enredo, possibilita, automaticamente, a atribuição
de ênfase ao fato da acusação infundada que recai
sobre Josef K., e não ao processo em si, em cujo momento último
está a execução do protagonista.
Com isso, a peça A acusação não acena ao
público necessariamente com um tom pessimista, como é
o caso da mensagem do romance de Kafka, onde a desorientação
do protagonista num mundo burocrático e autoritário culminará
com sua morte, como se nada pudesse reverter tal processo. Aliás,
impotência e ação inútil são motivos
que perpassam toda a obra de Kafka, marcando claramente um tom pessimista.
Para Kafka, o homem se encontra em uma situação paradoxal
e absurda entre vida e morte, imanência e transcendência.
Há uma meta, mas o caminho a percorrer ou é desconhecido,
ou não conduz à sua realização. Cabe lembrar
também que a terminologia jurídica que povoa a obra de
Kafka – processo, veredicto, colônia penal, tribunal, etc.
– era uma realidade muito próxima do autor, advogado de
profissão, que trabalhou como funcionário público
junto ao Instituto de Seguros de Acidentes no Trabalho, em Praga, de
1908 até a aposentadoria, aos 39 anos, já gravemente enfermo,
sofrendo de tuberculose, que culminaria com a sua morte em 3 de junho
de 1924, no sanatório da cidade de Kierling, nos arredores de
Viena.
Por sua vez, a caracterização das personagens na peça
A acusação, trajando sobretudos negros e chapéus,
faz-nos recordar dos desenhos de Kafka, alguns esboços traçados
de figuras humanas – talvez de si próprio -, em que o autor
não estabelece singularidades aparentes que pudessem diferenciá-las,
mas ressalta a expressividade corporal. Quanto ao próprio enredo,
vale a pena lembrar que, nas obras de Kafka, as personagens, muitas
vezes, não só exercem, mas são elas próprias
corporeidades de “funções”: juiz, porteiro,
advogado, agrimensor, caixeiro, mensageiro, etc. Desse modo, a opção
pela indistinção aparente entre algumas personagens, dentro
do processo de transcriação, contribuiu para acentuar
o sentido de seres autômatos dentro de uma sociedade burocrática
e autoritária que a tudo abarca.
Outro aspecto relevante a se destacar no processo de transcriação
é a construção da personagem Josef K., cujo papel
é desempenhado por mais de um ator – como, aliás,
ocorre também em relação ao desdobramento do papel
do pintor Titorelli. Aparentemente, esse procedimento colaborou também
para produzir um efeito de arbitrariedade em relação àquele
sob o qual recai a acusação, de modo que sua singularidade
é relativizada. Sem dúvida, as últimas apresentações
do Grupo Oficcina Multimédia, no Teatro Sesiminas, demonstraram
o excelente desempenho de seus atores. Além disso, o narrador
em off e a trilha sonora se ajustaram plenamente ao enredo e à
proposta do grupo em relação ao processo de transcriação,
fato que nos permite falar de uma obra em sua plenitude de conjunto.
E, como não poderia deixar de ser, a atualidade de A acusação
– e da própria inquietude de Kafka – fez-se presente
em toda sua força.
Por fim, destacamos o cenário e a iluminação, ambos
impecáveis e com extrema noção de funcionalidade.
Escadas, pranchas e módulos, associados às portas de fundo,
permitiram que se produzisse um mundo delimitado, confinado e, em certo
sentido, labiríntico, mas também em contínuo processo
de mobilidade criativa, sustentado pela movimentação,
por parte dos atores, dos elementos que compõem o cenário.
Pois o próprio mundo de Kafka é um mundo labiríntico
e confinado, em que diversas personagens – Josef K. é apenas
uma delas – lutam, em vão, para superar a desorientação
e encontrar o caminho a seguir, mas, no entanto, permanecem como aquelas
que não chegam nunca a um porto seguro, tornando-se, assim, anti-heróis
em plena crise no princípio do Século 20, e que nos parecem
tão atuais. Por assim dizer, Kafka “ilumina”de maneira
diferenciada o comportamento humano em geral, com traços exagerados
e tendendo ao absurdo, sem, no entanto, perder o seu cunho realista,
o que provoca não só estranhamento em relação
a eventos cotidianos, como também revela com maior propriedade
as relações sociais de poder e opressão.
Em O processo, uma situação absurda nos é apresentada
por Kafka com a maior naturalidade, sem qualquer interferência
narrativa que pudesse partilhar de nossa perplexidade diante da situação.
Aliás, a composição da cena diante da porta da
lei merece destaque especial, não apenas porque marca o final
da peça A acusação, mas também por funcionar
como uma espécie de parábola – de canto paralelo
àquela trajetória específica de Josef K. -, que,
desta forma, suspende o caráter singular dos acontecimentos e,
ao mesmo tempo, remete a um plano universalizante, intrínseco
à própria existência humana. Podemos dizer que a
relevância da peça A acusação – e,
por conseguinte, do romance O processo – no contexto atual reside
no modo como temos a apresentação da desorientação
do indivíduo em meio à burocracia e à sociedade
permeada por relações autoritárias de poder.
Por toda a competência com que o Grupo Oficcina
Multimédia – com uma longa estrada, que inclui a montagem
das peças Kafka (1984), Zaac & Zenoel (2000) e A casa de
Bernarda Alba (2001), entre outras, e que conta com um jovem elenco
– não só lidou com uma das obras mais significativas
da literatura universal dentro de um processo de transcriação,
ao mesmo tempo, complexo e inovador em termos de estratégias
genuinamente dramáticas, como também pela qualidade de
conjunto levada ao palco nas últimas apresentações,
A acusação, certamente, reúne em si aspectos que
lhe permitirão encontrar o devido reconhecimento da crítica
e o merecido acolhimento por parte do público.
Professor de língua e literatura alemãs da Faculdade de
Letras da UFMG.