INDICAÇÕES DE TEXTOS
PUBLICADOS NO SITE DO GOM
PT Kafkiano
Publicado em 28.07.2005 no site www.uol.com.br
FÁBIO LUCAS
Vocês lembram da história do homem que acordou e percebeu
que tinha se transformado numa barata?
Pois é. Em depoimento à CPI dos Correios, o ex-secretário
geral do PT, Sílvio Pereira, contou que se ocupou nestes dias
de turbulência com O Processo, de Kafka - mesmo autor de Metamorfose.
Leu para tentar compreender o que está acontecendo, mas continuou
sem entender, assim como também não entendeu o livro,
disse ele.
O exemplo foi dado para pinçar a identidade com o personagem
central da trama kafkiana em O Processo, que se vê julgado sem
motivo por uma corte totalitária. Fantasia e realidade se misturam
- no livro, não na CPI - para mostrar o desconforto existencial
em um mundo marcado pela opressão asfixiante.
O mundo de inimigos sem rosto e de acusações sem prova,
à volta de Joseph K., protagonista do romance, é muito
diferente do mundo dos companheiros e das evidências de culpa
em torno de Sílvio P., apenas um coadjuvante na tragédia
petista. E a principal diferença é esta: em Kafka, o lado
de fora e os outros podem ser o reflexo de angústia interna,
pessoal, no PT, os semblantes carregados de indivíduos subitamente
preocupados com suas ações são, inversamente, a
imagem da descoberta do mundo real. O pesadelo kafkiano pode ser a loucura
- o pesadelo petista é a lucidez.
Sílvio P. talvez acredite que a obra de Kafka possa ajudá-lo
a esclarecer injustiças que fazem de vítima o PT. Será
que ele acredita no que disse à CPI, e não sabe mais distinguir
a mentira da verdade? Só que antes de ler Kafka com os olhos
do PT, podemos ler o PT a partir de Kafka.
Noutro texto, o conto O artista da fome - nada a ver com o factóide
Fome Zero - o autor se refere à necessidade da dor secreta se
expressar em um tribunal público. O sofrimento privado exposto
à nação, por parte de militantes históricos,
fundadores do partido, tem sido a tônica da crise, bem como o
sofrimento nacional provocado pela sensação de impunidade.
O julgamento dos segredos do confessado “caixa 2” do PT
está trazendo à tona verdades e mentiras que não
se restringem, de fato, a um partido, provindo da tradição
de nosso sistema político - até pouco tempo mais acostumado
a dores secretas que a tribunais públicos. Mas em que isso exime
o partido, seus dirigentes e seus filiados que participavam do maior
esquema de corrupção já visto no País? E
principalmente, em que isso exime o presidente da República e
o governo como um todo - na medida em que o governo é do PT -
das ligações ilícitas e imorais forjadas entre
o público e o privado?
O “ptsunami” de fatos comprometedores, como foi apelidado,
não faz de O Processo a melhor referência kafkiana para
o que se passa, não em um tribunal secreto, mas à vista
perplexa da nação. Sílvio P. e outros companheiros
deviam prestar mais atenção à Metamorfose, que
talvez seja mais didático para traduzir as entranhas ofertadas
à opinião pública.
Quem sabe alguém, um dia, há de indagar: vocês lembram
da história do partido político que acordou e percebeu
que tinha se transformado numa barata?
Pois é.
Fábio Lucas é jornalista e mestre em Filosofia pela UFPE.
e-mail: fabiolucas@uol.com.br