INDICAÇÕES DE TEXTOS
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Diante da Porta
da Lei
Tradução
de Modesto Carone
“Diante da lei está
um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para
entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe
a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então
não pode entrar mais tarde. ‘É possível’,
diz o porteiro, ‘mas agora não’. Uma vez que a porta
da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se posta ao lado, o
homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando
nota isso, o porteiro ri e diz: ‘Se o atrai tanto, tente entrar
apesar de minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso.
E sou o último dos porteiros. De sala para sala, porém,
existem porteiros cada um mais poderoso que o outro.
Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro. O homem do campo
não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível
a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar
mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo
e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é
melhor aguardar até receber a permissão de entrada.
O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da
porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para
ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes
o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe
a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas
indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final
repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar.
O homem, que se havia equipado bem para a viagem, lança mão
de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita
tudo, mas sempre dizendo: ‘Eu só aceito para você
não achar que deixou de fazer alguma coisa’. Durante todos
esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção.
Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único
obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa
em voz alta e sem consideração o acaso infeliz; mais tarde,
quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e
uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até
as pulgas de sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo
mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele não
sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos
o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe
inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais
muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele
tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até
então ainda não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno
para que se aproxime, pois não pode mais levantar o corpo enrijecido.
O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já
que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem.
‘O que é que você agora ainda quer saber?’,
pergunta o porteiro, ‘você é insaciável’.
‘Todos aspiram a lei’, diz o homem, ‘como se explica
então que em tantos anos ninguém além de mim pediu
para entrar?’. O porteiro percebe que o homem já está
no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio
ele berra: ‘Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois
esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora
e fecho-a’.
OBS:
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