O Grupo
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INDICAÇÕES DE TEXTOS PUBLICADOS NO SITE DO GOM

 


O Universo feminino e o processo Criativo
Ione de Medeiros

1- PROCESSO CRIATIVO

A REDE INTRICADA DO PROCESSO CRIATIVO EMARANHADO DE UMA BUSCA CRIADORA


"Qualquer busca criadora de uma nova imagem ou idéia, envolve o exame de possibilidades que às vezes chegam a números astronômicos.
A escolha correta entre estes números não pode ser feita por simples exame de cada possibilidade que surja durante a busca, pois se tentarmos isso estaremos perdidos. Uma busca criadora se parece a um emaranhado com muitos pontos nodais. De cada um destes pontos se irradiam muitos caminhos possíveis em todas as direções e que levam a novas encruzilhadas onde surge outra rede de caminhos de toda parte. Cada um destes pontos tem a mesma importância crucial para o processo subseqüente. A escolha se tornaria fácil se pudéssemos comandar uma vista aérea de toda a rede de pontos nodais e de caminhos radiais ainda pela frente, mas isso nunca acontece. Dessa forma o espírito criador tem que tomar uma decisão quanto o caminho a seguir sem, contudo, possuir todas as informações necessárias para tal escolha. O espírito criador tem que avançar em frente ampla deixando muitas opções em aberto. É preciso que ele ganhe um ponto de vista que abranja toda a estrutura do que tem pela frente, sem conseguir focalizar possibilidades isoladas e sem qualquer esperança de conseguir uma visão clara". (A ordem oculta da arte, de Anton Ehrenzweig).

“Tanto escrevendo quanto jogando beisebol, você nunca sabe o que vai acontecer nem o que vai fazer”.
(Marianne Moore-1887-1972)


Sobre o emaranhado de idéias e informações, tecemos um traço que toma a sua forma pelo processo da elaboração da linguagem.
Optar significa escolher. Escolhemos com o consciente e o inconsciente e não sabemos como se equilibram estas partes no processo da criação. Existe muito mistério em nossas escolhas. É comum nos surpreendermos com o resultado final. Isto também porque existe um momento em que a obra começa a ter vida própria, de repente ela se impõe, e salta diante de nós. Ganha autonomia toma vida.
O resultado é que sempre estamos um pouco defasados em relação àquilo que criamos. Achamos que a criação está sob controle, mas ela não está. Daí resulta a instabilidade particular ao processo da criação. A dúvida paira, sempre. Ao mesmo tempo neste caminhar temos que ter algumas certezas
-existe mesmo um desejo que estas certezas sejam permanentes - elas não são. Então o que temos são certezas provisórias.
Neste caminhar introduzimos as mudanças vamos deixando coisas pra trás, portanto fazer e desfazer significa perder sempre algo.
O processo criativo implica então em frustrações, angústia, medo, risco e coragem. É como estar equilibrando numa corda bamba com a perspectiva de poder cair a qualquer momento.

CONDIÇÕES DA CRIAÇÃO

Criar significa também errar. É difícil lidar com o erro porque fomos educados para o acerto. Criar significa também não ter garantias de uma resposta imediata. É difícil também porque vivemos num mundo cada vez mais pragmático em busca de soluções em curto prazo. Tudo tem que ser rápido e tudo tem que funcionar. Criar significa também perder tempo, porque o próprio delineamento da obra exige tempo. No entanto, o lema atual é não perder tempo. O ócio-aquele momento dedicado ao não fazer nada-também é necessário. Não se trata de ocupar o tempo se divertindo, mas de ocupar o tempo não fazendo nada. Mas este ócio será sempre mal visto. Criar também significa recuperar nosso lado lúdico que ficou perdido na infância. Agora somos adultos. Ficamos sérios. No entanto, brincar faz parte do processo de criação, o que nos traz um enorme componente de prazer. Este prazer gera culpa, porque ele está respaldado na fantasia ou no imaginário. Ambos são bastante impalpáveis, sem objetivos claros, portanto quase ilegítimos. O artista é sempre um pouco culpado. Culpado de gostar do que faz. Culpado de ser feliz, apesar de tudo.

“É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza”.
Edgar Morim

2-A CONDIÇÃO DA MULHER HOJE

Para a mulher a vida de artista implica numa série de violências. Primeiro porque, se a mulher naturalmente tende para a reprodução, nossa cultura reforça este dado. Nosso corpo foi pensado para gerar filhos e manter a espécie. A maternidade, a família, ambas determinam por si mesmas, uma serie de condições, que andam na contra mão do envolvimento necessário à prática da arte.
Como mãe, cabe a mulher uma função referencial dentro da família.Aí já se instala o apelo à estabilidade. Ela deve ser aquela que dá segurança, a que cuida, a que educa, a que direciona, aquela que sabe, a que ampara, a que é estável, se erra é a causadora do sofrimento dos filhos, a culpada de suas frustrações.Cabe-lhe também administrar o território doméstico com muita competência. A casa ainda deve permanecer como um porto seguro para a família, somando também aconchego e harmonia. Ali não deve faltar nada. A mulher ainda é o centro, a maior responsável pelo andamento desta pequena comunidade familiar.

A MULHER MODERNA

A mulher moderna acumulou mais funções. Por isso ela tem que ser eficiente, sábia, compreensiva tem que ser independente, mas dócil, tem que saber ceder, tem que ser inteligente, mas sem ostentação, tem que ter opiniões, com discrição, tem que ter paixões, comedidas, tem que fazer teatro, representar, esconder suas próprias fragilidades, tem que ser forte, madura, resolver problemas de toda sorte, administrar orçamentos, (completando o orçamento familiar ou arcando sozinha com ele) tem que ser alegre, mesmo na adversidade, tem que estar atualizada, flexível às mudanças do mundo, tem que refrear o tempo e permanecer jovem, (algumas se vestem como as filhas) bela, sexy em qualquer idade, tem também que lidar com a competitividade masculina, e a feminina numa concorrência impiedosa por parte de mulheres, pois ainda não se constituíram como uma classe.


“A mulher se tornou mais útil à sociedade depois que abandonou a cozinha.”(Marianne Moore)


O FARDO DE SER MULHER

Na realidade, a mulher se tornou mais útil mesmo à sociedade, mas ser mulher é, por si só, um fardo pesado a ser carregado. A própria modernidade nos custa um preço alto porque ainda estamos atreladas a velhos conceitos domésticos e familiares. A mulher se sente culpada pelo tempo gasto fora de casa e se pune trabalhando em dobro. A parceira independente, mulher moderna, ganhou uma dupla jornada de trabalho.

CASAMENTO AINDA É FETICHE

O mais curioso é que o casamento não perdeu o seu fetiche. É uma instituição que, supostamente, ainda dá segurança e socialmente legitima a mulher num mundo ainda bastante masculino, apesar das aparências. Enquanto Instituição, o casamento, a maternidade ainda legitimam a mulher, assim como, lhe dão a sensação de pertencer a algum lugar, e a função de garantir a continuidade do "clã". Isto lhe proporciona segurança mesmo que falsa.
Deve ser por isso que as mulheres, jovens de hoje, apesar de tudo, ainda querem casar, ter filhós e constituir família, mesmo que tenham que pagar um alto preço para obter este status.


3- SER MULHER ARTISTA

“Os campeões devem ser aclamados não pela importância dos seus feitos, mas pelos obstáculos que venceram”.
(Ezra Pound sobre Marianne Moore)

É difícil ser profissional e, sobretudo é difícil ser artista. Ser artista é romper com esta condição de estabilidade e rotina. A arte instaura a desordem ou instala uma nova ordem, e impõem ao artista uma atitude interna sempre renovada. Ela promove rupturas, exige grandes saltos, descentraliza a mulher do lar, e de seus objetivos estritamente familiares, confere ao artista uma paixão diferente, é quase um novo casamento, exigindo uma nova fidelidade. Mesmo que esta seja a exigência de qualquer profissão no mercado de trabalho, ser artista compreende uma função diferenciada, com um produto diferenciado. A arte trata da essência humana, no que ela tem de mais profundo, mais antigo e menos palpável. Está conectada com um outro assunto, uma outra sobrevivência, e, portanto exige um autor/ criador também diferenciado.
O artista, homem ou mulher tem que partir de uma conexão profunda e corajosa consigo mesmo, com o mundo, com a própria história do homem. Ser artista é desenvolver o potencial de renovação, de reconstrução, de revisão do estabelecido para poder refletir o seu tempo em toda sua complexidade. Ser mulher artista é duplamente romper, é ultrapassar, atingir a outra margem, é se recriar, se reinventar a partir de referências cambiáveis, instáveis e misteriosas.

4- UM CAMINHO A SER PERCORRIDO

“O isolamento é a cura para a solidão” (Marianne Moore)


A mulher artista vai ter que construir uma nova identidade percorrendo um caminho solitário, sem muitas referências. Ela vai ter que administrar sua condição feminina no seu encontro com a arte, promovendo mudanças individuais, e se inserindo no coletivo. Cabe-lhe:
-Usar de sua generosidade, seu desprendimento maternal, rompendo as barreiras do círculo familiar, direcionando-se para a causa coletiva.
- Dividir-se e deslocar-se enquanto centro de referência familiar, pois se ela se torna uma pessoa pública vai assumir um novo posto dentro da comunidade. A partir daí, ela começa servir a uma engrenagem social mais ampla, passa ao domínio do coletivo e ali se estabelece dentro de um outro conceito de realização pessoal, que não nos foi transmitida culturalmente.
-Romper com qualquer sentimento de propriedade, como aquele que ainda paira na relação familiar. Na arte, nada nos pertence. O que fazemos, uma vez feito, passa também a pertencer ao domínio público.
Esta construção que compreende divisão e reconstrução da uma identidade feminina é difícil; existem até mesmo as mulheres que estão abrindo mão da profissão diante da dificuldade de conciliar casa e trabalho.
Como artistas temos que fortalecer uma postura, desvinculada de velhos condicionamentos tais como o de receber a aprovação dos familiares por nossas escolhas. Temos que inserir uma outra condição que não seja a de filhas ou mães. Temos que saber que, se nos decidimos pela arte, optamos por um caminho onde não tem volta. Esta é a nossa luta. É um percurso solitário e às vezes cruel, mas único e insubstituível.

Ione de Medeiros.


POEMA "CASAMENTO"

Esta instituição,
requer todo o ilícito engenho
para se evitar!

“Os casados têm quase sempre esse jeito” –
“alheios e frios, para cima e para baixo,
com um dia bom e outro ruim”.

No qual a experiência atesta
que os homens têm poder
e às vezes alguém tem de senti-lo.

Ela diz: “Os homens são monopolistas
de ‘estrelas, ligas, botões
e outras quinquilharias cintilantes’ –
inadequados para ser os guardiões
da felicidade de outrem”.
Ele diz: “É preciso
cautela ao lidar com estas múmias –
‘os restos da refeição de um leão,
um par de tíbias e um tico de orelha’;
pegue a letra M
e verá
que ‘uma mulher é um esquife’,
esse objeto rígido
cuja agradável simetria
especifica espaço, não gente,
recusando-se a ser sepultada
e singularmente decepcionante,
vingativamente afeita à atitude
de adorável filha
de ilustre genitor”.

Ela diz: “Esta borboleta,
este mosquito, este nômade
que ‘propôs
assentar em minha mão por toda a vida’ –
O que faço com isso?”

Esquecido o fato
de que “alguns têm só direitos
enquanto outros têm obrigações”,
ele ama tanto a si mesmo
que não se pode permitir qualquer rival neste amor.
Ela ama tanto a si mesma que é incapaz de se ver direito –

“Tudo que diz respeito ao amor é um mistério”;
a investigação desta ciência demanda mais que um dia de trabalho.”

Marianne Moore



 

 

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